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OS URSOS POLARES SÃO CANHOTOS!

Dadá

 

Criar e educar os filhos é uma tarefa difícil. Talvez impossível. Saber de cor o livro do Dr. Lemare ou todos os ensinamentos do psicanalista Bruno Bettelheim podem ajudar, mas são sempre insuficientes. Inexplicavelmente, de alguma forma, geralmente tudo termina bem.

Entre os diversos valores que procuramos – eu e a minha esposa – transmitir aos nossos filhos estão os de ler e aprender. Na tarefa de os ensinar a serem curiosos e a gostar de livros fomos bem-sucedidos.

Ressalte-se, “en passant”, que aprender está longe de ser a única função da leitura. Na maior parte das vezes, a leitura descompromissada, sem a preocupação de “guardar nada”, é um prazer indescritível. Mesmo quando lemos um texto com a finalidade de “entender” e de “lembrar” para uma prova ou um concurso, se isto é realizado com prazer é muito mais fácil. A escola precisa ter o sabor do saber.

Na questão do aprender, considero-me um clínico geral. Sou curioso, gosto de aprender sobre tudo e defendo que não há conhecimento inútil. A pergunta que sempre surgia por parte das “crianças” era: “mas porque que eu preciso saber isso?”. Respondia eu, usando do argumento da utilidade, que algum dia isso serviria para alguma coisa. E contava a história do professor, em São Paulo, alguns anos atrás, que, ao ser confundido com um ladrão, teve que dar uma aula sobre a revolução francesa para não ser linchado.

Gosto de conhecimentos inúteis. Sempre imagino que saber qual é a capital do Burundi, a velocidade das tartarugas ou porque dois fios se enrolam vai me permitir escapar de algum “linchamento qualquer”.

Minha filha, Maria, leitora voraz e curiosa, nunca se conformou com a ideia de aprender conhecimentos inúteis. Mas os desígnios de Minerva, a deusa da sabedoria, trataram de fazê-la mudar de opinião. Assistia uma aula do cursinho pré-vestibular, quando o professor perguntou: “Existem três coisas que param no ar. Uma é o helicóptero e outra, o beija-flor. Qual é a terceira?” Naquela sala, só Maria sabia a resposta. Papai havia a ensinado: Dadá Maravilha, o folclórico centroavante do Atlético Mineiro, que dizia ter esse poder. Segundo a lenda, Dadá foi convocado para a seleção brasileira de 1970 por ordem do presidente Médici.

Atualmente, Maria não acredita que existam conhecimentos inúteis.

INVERNO, AMANTES E BOEMIA

Vincent-Van-Gogh-The-Brothel

 

Não foram poucos os detratores da nossa Lages. Entre os mais famosos está Robert Avé-Lallemant que, em meados do século XIX, achincalhou a cidade. Seus vitupérios podem ser encontrados no livro “Viagens Pelas Províncias de Santa Catarina, Paraná e São Paulo”. Outro difamador foi o paulista Paulo Setúbal, que escreveu no memorialístico “Confiteor” que os dois anos vividos na cidade (1919-1920) embotaram fundamente a sua sensibilidade. Alega que jogava como um dementado e que chafurdou na “vida solta” da cidade na companhia das “mulherinhas de estrada”. Insinua que, mesmo vindo de São Paulo, fruto de uma família quatrocentona, foi em Lages que “esqueceu de Cristo e aprendeu a boemia”.

As histórias da vida noturna são parte importante em alguns dos contos escritos pelo lageano de adoção Márcio Camargo Costa. Parece que os anos cinquenta, auge das serrarias, foram também o ápice do “entretenimento para adultos”. Em tom de brincadeira, Márcio costumava dizer que Lages teve o maior corpo de baile do sul do país. Bailarina era a profissão mais frequente na carteira de saúde de algumas moças.

Outros lageanos e outros fatos também fortaleceram a “má fama”. No início da década de mil novecentos e cinquenta iniciaram-se os primeiros voos da extinta companhia aérea Cruzeiro do Sul. Grandes centros como São Paulo e Porto Alegre ficaram mais próximos. A chegada de visitantes se tornou mais frequente – e não apenas para comprar madeira. Há um ditado da época, cujo autor pode ser lembrado em qualquer esquina da cidade, que “uma mulher* bem administrada rende mais que uma serraria”.

Um exemplo mais contemporâneo do espírito fescenino da cidade foi o denominado “Clube dos Cachorros”. A entidade, cuja sede situava-se nas proximidades da AABB, não era exatamente um clube social tradicional – embora seus frequentadores fossem todos membros da sociedade lageana.

Alguns dos sócios do Clube dos Cachorros eram “habitués” do movimentado “happy hour” do bar do Grande Hotel Lages. Uma história demonstra o espírito “da época”. Inverno rigoroso, tarde da noite, alguém levantava e dizia: “Agora vou embora, vou ver a namorada, e depois vou para casa”. Alguém retrucava: “Mas por que não vai direto e namora com a patroa?”. A resposta era imediata: “Ora, chega a ser um desaforo pelar a muié véia num frio desses!”

Eram outros tempos. A cidade se modernizou, as luzes vermelhas foram apagadas, as casas de tolerância sumiram e os lageanos já não possuem o hábito de ter amantes…

 

*No original, o autor utilizou uma figura de linguagem: metonímia; a parte pelo todo. Como um “bom moralista lageano” preferi omitir o termo chulo. Mas começava com “B”.

**A gravura que ilustra este post é de Vicente Van Gogh.

#Umlivrodecadapaís – Mali

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Livro 44
País – Mali
Autor – Amadou Hampâté Bâ
Título – Amkoullel, o Menino Fula
Editora – Palas Athena

 

O texto de Amadou Hampâté Bâ é autobiográfico, com histórias da infância e da juventude. O autor, considerado mestre da tradição oral africana, já no final da vida, escreve as histórias que viu, vivenciou e escutou.

O relato é feito com detalhes. Amadou Hampâté Bâ conta que as técnicas de memorização lhes eram ensinadas na escola corânica*. O conhecimento era repetido muitas e muitas vezes em voz alta – para que perdurasse.

O menino, de etnia fula, aos 80 anos, consegue evocar minúcias da sua história. O texto se torna ainda mais interessante pela inserção de muitas fotos antigas.

O livro narra a saga de sua família e como Amadou Hampâté Bâ transitou entre o mundo tradicional e o mundo do colonizador francês. É fácil para o leitor perceber, no percorrer do texto, que está “escutando um mestre da palavra”.

Amadou Hampâté Bâ participou dos primeiros estudos que utilizaram as fontes orais de maneira sistemática e permitiu que as tradições orais fossem reconhecidas como fontes legítimas do conhecimento histórico. “A História Geral da África”, publicado pela Unesco, em 1980, teve a sua ativa colaboração.

 

*Escola corâmica é o ensino islâmico para a população.

 

Frases escolhidas

• A vida é um drama que é preciso viver com serenidade.

• Assobiava baixinho, como fazem os brancos quando estão contentes.

• Quando um velho morre é uma biblioteca que queima.

• Se um homem que é meu inimigo entra na casa de Allamodio, ainda que não se torne meu amigo, cessa de ser meu inimigo.

• A todos Anta N’Diobdi respondi com altivez: “Jamais me casarei com um homem cujas mãos tenham sido enegrecidas e empestadas pela pólvora de um fuzil e que, além disso, seja um poltrão. Só um poltrão pode aceitar combater com um fuzil. Esconder-se atrás de uma árvore e matar a distância não é guerrear! A bravura está no combate com a lança ou com o sabre, olhos nos olhos, peito contra peito!”

• Deixaram a casa sem terminar a refeição, gesto muito grave na África, onde não aceitar a comida de uma mulher é sinal de rejeição e ruptura. Isto significa claramente: “Todos os amigos de Hampâte se divorciaram de você”.

• (…) nem que fosse em obediência ao ditado malinês que diz: “Tudo o que somos e tudo que temos, devemos somente uma vez a nosso pai, mas duas vezes a nossa mãe”. O homem, dizemos, nada mais é que um semeador distraído, enquanto a mãe é considerada a oficina divina onde o criador trabalha diretamente, sem intermediários, para formar e levar à maturidade uma nova vida.

• “Os chefes brancos”, diziam, “apresentam seus inimigos a nossos filhos; portanto, indiretamente, a nós mesmos, como se fossem feiticeiros ou diabos; mas é impensável que toda uma raça seja constituída só por pessoas ruins. Os homens são como as ervas e as plantas dos campos: as espécies venenosas crescem ao lado das espécies que curam, e as plantas comestíveis, ao lado das que não o são. Todos os homens, com exceção dos sábios e dos santos, têm um traço comum: todos tentam denegrir seu inimigo ou adversário e apresentá-lo como patife. Porém, bem poucos percebem que ao diminuir o valor de seu rival não fazem senão minimizar seu próprio valor.”

• Sei de uma coisa e quero que vocês também, meus irmãos, a saibam: “no país onde as audiências se dão à sombra das grandes árvores, o rei que lhes corta os galhos verá seu conselho sentado ao sol”. Matar um indefeso é fácil, mas é arte do carrasco. A arte real consiste em deixar viver e fazer prosperar, o que nem sempre é fácil.

#Umlivrodecadapaís – Romênia

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Livro 43
País – Romênia
Autor – Herta Müller
Título – O Compromisso
Editora – Globo

Herta Müller é uma escritora romena, naturalizada alemã. Sua família vivia em uma região romena em que o alemão era a língua principal. Aprendeu o romeno na escola.

A obra ficcional de Herta Müller trata, frequentemente, da violência contra a minoria de fala alemã durante a ditadura romena.

Herta Müller foi a décima segunda mulher a receber o Prêmio Nobel de Literatura (atualmente quatorze mulheres foram contempladas).

Até a data da premiação, o seu único romance publicado no Brasil era “O Compromisso”. Atualmente, parte significativa de sua obra está disponível em português.

“O Compromisso” relata a rotina de uma ex-operária da indústria têxtil, que é interrogada por um major da polícia secreta da Romênia, durante o regime totalitário de Nicolae Ceausescu. A narrador, protagonista, deve comparecer, como faz com frequência, a mais uma sessão de interrogatório. O trajeto desde sua casa é feito de bonde. Toda a narrativa acontece durante o deslocamento. Os incidentes do percurso e as impressões da protagonista são relatados. O leitor tem acesso às lembranças da personagem, incluindo seus dois casamentos e o fuzilamento da melhor amiga (que teve o corpo dilacerado pelos cães). O sogro do primeiro casamento, que foi responsável pela deportação de seus avós, é apresentado como um canalha, que tentou – entre outras coisas – se oferecer como substituto do próprio filho nas “obrigações maritais”, quando este foi cumprir o serviço militar.

O relato, feito em primeira pessoa, trabalha a situação de alguém que vive em “estado de convocação” em um regime ditatorial.

Herta Müller, quando do anúncio do Prêmio Nobel, foi definida como “alguém que, com a concentração da poesia e franqueza da prosa, retrata a paisagem dos abandonados”. A narrativa “O Compromisso” corrobora essa afirmação.

 

Frases Escolhidas

• Quando caminhava, eu nem percebia que havia algo de belo lá em cima no céu, e que na terra não havia nenhuma lei proibindo olhar para cima.
• A classe operária procura diferenças, não há igualdade pela manhã.
• Eu gostaria de saber se com outras pessoas o cérebro é responsável pela razão e pela felicidade. Comigo, o cérebro consegue apenas formar uma pequena felicidade. Para formar uma vida, não basta. Pelo menos não para formar a minha vida. Já me ajeitei com a felicidade que tenho, embora Paul diga que não é felicidade.
• (…) como são belos os vestidos que não podemos comprar.
• Há moças que parecem flores ou anjos. Mas você, meu filho, se enrola num pano onde todos já se limparam.
• Quando a gente não está apaixonada, dançar é mais incomodo do que o aperto no bonde, eu dissera ao meu sogro. E quando a gente está apaixonada, tem coisa melhor a fazer, pode-se esticar as pernas de outra forma e sentir a mesma vertigem.

 

Outros livros de Herta Müller publicados no Brasil:

“Depressões”, “Sempre a Mesma Neve e o Mesmo Tio”, “O Homem é um Grande Faisão no Mundo”, “A Raposa Já Era o Caçador”, “O Rei se Inclina e Mata”, Fera Dalma”, “Tudo que Tenho Levo Comigo”.

HOTEL CINCO ESTRELAS

Rato 3

 

Não sou exatamente um sujeito exigente na escolha de hotéis. Tendo facilidade em dormir em qualquer lugar e o hábito de um café da manhã frugal, quase todos os hotéis me servem. Uma fatia de pão, pedaços de queijo e presunto, e uma fruta bastam – mesmo que a oferta seja vasta.

Minha esposa é menos condescendente, principalmente quando estão envolvidos os filhos e a limpeza do ambiente. Inicialmente, eu reservava os hotéis e confesso que não tinha muito cuidado. Atualmente, concordamos que é ela quem faz a escolha – desde que, claro, ajude a pagar a conta. Lembro aqui duas pequenas “saias-justas”.

Itajaí, encontro político, primeiro filho com seis meses. Escolhi um hotel, que vi imediatamente que não era dos melhores. Já fui justificando: “Bonzinho… e é barato!” Na hora do banho do menino, a minha alegação ficou frágil. Solicitamos uma banheirinha e recebemos uma bacia – amassada, com alguns resíduos e um cheiro que não deixava dúvidas: era da cozinha. Provavelmente para salgar a carne. Acho que, por isso, tinha que ser devolvida até as 10 horas. Lá fui eu, ao mercado, comprar uma banheira.

Belo Horizonte, congresso médico, dois filhos pequenos. Ao entrar no quarto, minha esposa exclamou: “Que espelunca, deve ter até rato!”. O ambiente era, realmente, desalentador: quarto pequeno, escuro, um carpete com aparente saudade do aspirador de pó, as cortinas puídas, o cheiro de mofo, … “Tá bonzinho”, disse eu, “São só três dias!”. Ao retornarmos para casa, a minha argumentação foi destruída. De repente, um grito. Corri para ver o que estava acontecendo e lá estava Cristina em frente a mala, recém-aberta. Em um canto do quarto, um ratinho. Ao me ver, o rato, como se soubesse “quem mandava na casa”, disparou. Nunca mais o vi, mas tendo em vista o frio que fazia naquela noite, e a expectativa de vida dos ratos, tenho a impressão que ele já passou desta para a melhor. Quando ele saiu correndo pelo corredor, tive a impressão que ouvi um “uai”.

#Umlivrodecadapaís – Zimbábue

Zimbá

 

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Livro 42
País – Zimbábue
Autor – J. Nozipo Maraire
Título – Zenzele – uma carta para minha filha
Editora – Mandarim

J. Nozipo Maraire, médica, neurocirurgiã, deixou o Zimbábue com a família durante a guerra de independência. Voltou ao país antes do término da guerra, no auge do racismo, do medo, da raiva e do ódio, como ela mesma afirma. Permaneceu no Zimbábue até os 18 anos, quando se mudou para Estados Unidos, onde fez a sua formação acadêmica. Atualmente, divide o seu tempo entre os dois países.
“Zenzele – uma carta para minha filha” é o seu único romance. Embora não seja uma autobiografia, incorpora a experiência de vida da autora e as histórias que ouvia de sua tia, de sua mãe e de sua tia sobre a luta pela independência. Foi escrito sem intenção de publicação, mas tornou-se um livro extremamente bem-sucedido.
A narrativa tem a forma de uma carta de uma mãe do Zimbábue para a filha que estuda em Harvard. A história fala de amor, religião, da guerra de independência, mas a “mensagem principal” é de como Zenzele não deve esquecer que é uma africana.
Shiri, a mãe, tenta demonstrar à filha os valores profundos da cultura do Zimbábue. O relato é feito de forma poética e comovente.
Ao mesmo tempo que enaltece as tradições e a sabedoria de seu povo, Shiri é sensível aos modos rebeldes da filha. Os conselhos da mãe são acompanhados do apoio ao feminismo radical de Zenzele.
O relato é intimista, mas permite a compreensão de algumas questões históricas. A luta pela independência do Zimbábue (antiga Rodésia) do Império Britânico é apresentada pelo ponto de vista dos africanos. A situação dos combatentes locais pela liberdade (denominados “terroristas” pelos ingleses) e das mulheres soldados do Zimbábue é apresentada, em uma textura histórica diferente da tradicional.

 

Frases Escolhidas
• Não há homem no mundo que mereça a sua dignidade. Não confunda abnegação com amor.
• Bem-vindo, meu caro, ao mundo ocidental, terra da democracia, da liberdade e do fanatismo.
• O racismo é uma coisa fenomenal; é como uma névoa espessa que obscurece a visão e o julgamento de grandes mentes.
• – Shiri, ao fim e ao cabo você só encontrará dois homens na vida: um fará suas mãos tremerem, o outro as deixará firmes. O primeiro será a paixão da juventude, mas, tal como o fogaréu na mata, logo morrerá em tições bruxuleantes e a seguir em cinza fria. O segundo entrará em sua vida sorrateiramente, como um ladrão no meio da noite. Será como as árvores da floresta, tão imensas que não as vemos à nossa frente, ainda que estejam ali, altas e fortes, sob chuva e sol, enterrando profundamente as raízes e protegendo-nos com sua folhagem. É com o segundo que você deve casar. Ele vai ser um bom marido e um bom pai para seus filhos.
• O corpo da juventude conhece o seu dia e deve vivê-lo integralmente. Também o corpo da colheita tem seu tempo. É o meu agora. É um corpo que ceifou, semeou e colheu a si mesmo. Algum dia chegará também o corpo da terra, o finalmente eterno, que não tem forma nem se extingue, para onde devemos todos retornar.
• Enquanto o leão não aprende a escrever, as histórias de caçada irão sempre glorificar o caçador.
• “A história”, diz meu pai, “é determinada por seus autores, assim como um edifício é definido pelo arquiteto e não pelos moradores”.
• Você não pode rejeitar um costume simplesmente porque é vulnerável ao abuso. Isso é como não ir à igreja porque há tantos hipócritas lá…

LEMBRANÇAS DO HOMEM DA FITA

Alaor

 

Alaor Schweitzer foi um grande cardiologista. Mestre de muitos médicos que ainda estão na ativa. Em determinado momento mudou completamente seu caminho. Decidiu-se pela política. Discípulo de Brizola, sempre se mostrou como alguém profundamente idealista – seguindo os passos do seu mestre. No desejo de mudar o mundo, portava-se no limite. Era comum ouvir o povo falar:

– O Alaor pirou!

Como gostava de dizer o advogado/filósofo Rogério Castro, “em Lages metade da população é louca e a outra metade, pensa que não é”.

Por isso, cabe viver com nossas loucuras particulares, entender a dos outros e, principalmente, valorizar as qualidades. Alaor tinha muitas qualidades. Seu idealismo deve ser lembrado e enaltecido. Os dias atuais aconselham. Com ele vivi muitas histórias.

O PDT ele era um partido pequeno, em Lages, quando me filiei. Diziam que era composto por um médico maluco (Alaor), um vendedor de maçãs (Reinaldo Vaz) e um consertador de guarda-chuvas (Tio Plinio).

A paixão do “homem da fita” (Alaor usava uma fita na cabeça) pelo Getulismo e pelo Brizola era obsessiva. No dia de minha filiação, fui obrigado a ler, em voz alta, a carta testamento de Getúlio Vargas. Era um ritual. Era um compromisso com a proposta política.

Na medida em que o conheci melhor, ficamos amigos.

Na campanha para prefeito, contrariando todas as previsões da época, vencemos. Alaor pediu para almoçar comigo. Lá no Cansian, do bairro São Cristóvão, a conversa foi longa – como ele gostava. Ele tinha repertório para discutir sobre qualquer coisa: futuro governo, situação do país, saúde, educação, preocupação com a distribuição de renda, a pobreza,… Sempre pensando no que acreditava ser o bem do povo. E para tudo a solução passava pelo Brizola.

No final, quase nos despedindo, ele falou:

– Tenho duas propostas pra você. Uma você tem que aceitar. Ou você me leva para conhecer o Brizola no Rio ou me nomeia secretário de educação do município.

Mas, observou ele, temos que ir pro Rio de carro, para ir conversando. Além disso, temos que ficar pelo menos uma semana.

A conversa até que era agradável, mas uma semana era muito tempo e ir de carro…

– Tá nomeado secretário, disse, rapidamente.

Não pretendia nomeá-lo. Mas ele teria algum cargo, o que fosse melhor para ele e para a cidade.

Alaor acabou ficando doente. Teve um problema linfático e, para obter um melhor tratamento, foi morar em Florianópolis. Ou seja, não participou ativamente da gestão.

Passado um tempo, fui procurado pelo vereador Toninho, da Palmeira. Eu era o único prefeito do PDT na região e ele, o único vereador eleito pelo partido. Almoço no Pegorini. Assunto: o PDT na região. Lá pelas tantas, Toninho vira-se pra mim e pergunta:

– Coruja, e aquele médico meio-louco do PDT, o que é feito?

Parei e respondi:

– O único médico do Partido meio-louco que conheço sou eu.

Ele olhou-me, seriamente, e disse:

– O outro!

Aí percebi que ele falava do Alaor. Respondi:
– Ah, tá em Florianópolis.

Ele olhou-me, espantado, e arrematou:

– Mas, tá na Colônia?

(Uma explicação necessária para os mais jovens: antigamente, se o sujeito tivesse qualquer insinuação de que não batia bem da cabeça e fosse morar em Florianópolis era porque havia sido internado na Colônia Santana, o Hospital Psiquiátrico do Estado).

COMEMORANDO

Espumante

 

Conheci o lageano Rogério Proença quando estava fazendo a residência médica no Rio de Janeiro. Fui apresentado por um amigo comum, o radiologista Luiz Antônio de Miranda (Alemão). Ficamos amigos. Rogério trabalhava no Banco do Brasil e já estava na cidade a alguns anos. Apresentou-me o Rio de Janeiro e nossa amizade foi crescente.

Nos últimos dias de minha estada na cidade, antes de voltar para Lages para trabalhar como endocrinologista, chegou minha prima Rossana. Nutricionista recém-formada, ela iria iniciar o mestrado. Depois de tê-la apresentado ao Rogério, pedi que cuidasse dela. Penso que cuidou bem. Casaram e, hoje, já estão chegando os netos.

Depois de conhecer o Magrão (apelido que Rogério carrega até hoje, embora o corpo não mais confirme o epíteto), tornei-me amigo de todos os membros da família. Conheci seus pais e seus oito irmãos (três já falecidos).

O pai do Magrão, Sebastião Proença, era um flamenguista roxo. Sempre que o encontrava pelas ruas de Lages, o Flamengo era o nosso assunto principal – eu também sou um simpatizante da causa!

Era 2013 e o ano estava terminando. O Flamengo ia bem na Copa do Brasil e enfrentaria o Goiás na semifinal. Encontrei o Sebastião e, após alguns comentários, falei: “Se formos campeões, precisamos comemorar. Vamos tomar um espumante!”

O Flamengo foi para final contra o Atlético Paranaense. Sebastião foi para o hospital. Ele estava adoentado a algum tempo e teve o seu quadro agravado. Foi internado no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres. De vez em quando, eu o visitava. Nossa conversa era sempre a mesma, o Flamengo, mas a doença não arrefecia.

O Flamengo foi campeão. Entendi que, mesmo com Sebastião no hospital, eu deveria cumprir o acordado. Pedi autorização à família e ao seu médico e lá fui eu. Passei no supermercado e comprei uma garrafa de espumante e duas taças.

Violando um pouco as regras, pois não recomendo levar comida ao hospital, e muito menos bebida alcoólica, entrei no quarto. Meu amigo Sebastião estava cada vez mais enfraquecido e quase não falava.

“Vim cumprir o nosso acordo!”, falei. Aberto o espumante, servi meia taça para cada um. Sebastião, ainda quieto, mas com pequeno sorriso no rosto, tomou a sua parte.

Dirigi-me à pia do quarto, com intenção de esvaziar o resto da garrafa, quando ouvi o brado mais forte: “Não bote fora!” O doente queria mais.

Não sei se foram os bons cuidados do seu médico, Paulo Waltrick, a vitória do Flamengo ou o espumante, mas dali para frente, ele só tratou de melhorar. Seu Proença logo recebeu alta.

FEIJOADA COMPLETA

Feijoada

 

Congresso sul-brasileiro de endocrinologia: sábado, no intervalo rápido para o almoço, procuramos por um restaurante próximo. Estava com minha esposa e entramos no “Divino”.

É interessante perceber como a palavra “divino” está ligada à comida. É uma expressão comum para dizer que algo está muito bom. Que eu saiba, afora os deuses antropomórficos greco-romanos, com o néctar e a ambrosia, não são os deuses necessitados de comida.

A pressa recomendava solicitar o prato do dia, que era feijoada – algo não muito aconselhável para quem pretendia frequentar uma tarde de palestras.

A feijoada brasileira, cuja origem é atribuída aos escravos, com seus inúmeros ingredientes, não é um alimento de fácil digestão.

O prato do dia era, na verdade, uma “minifeijoada” – o que me parece ainda mais estranho em um restaurante chamado “Divino”. Uma heresia. Feijoada, como canta Chico Buarque, tem que ser completa.

Enquanto pensava sobre a feijoada, vieram-me algumas lembranças literárias. Joel Silveira, ferino jornalista brasileiro, autor de mais de 40 livros, em um de seus textos mais famosos, “A Feijoada que Derrubou o Governo”, relata que, quatro dias antes do 31 de março de 1964, todo o “staff” do governo João Goulart se reuniu na casa do Ministro do Trabalho, João Pinheiro Neto, para uma feijoada completa. Conta Silveira (que estava na companhia de Otto Lara Resende e outros jornalistas), que ninguém acreditava que o governo pudesse cair. Segundo o escritor, a indigestão durou alguns anos.

Lembrei também de um conto do mineiro Luiz Vilela: “A Feijoada”. Um homem triste entra em seu restaurante preferido, em um sábado, para saborear uma feijoada completa. A casa está cheia. Como o garçom é amigo, logo ele está acomodado. Cada nova “pinga”, vem acompanhada da pergunta: “o que que achou?” Divina, responde o homem triste.

Após algumas horas, como convém para “digerir” a feijoada completa, o homem continua triste e abatido. O garçom questiona: “Talvez seja o fígado”. Já havia lhe oferecido um Sonrisal e, agora, sugere um Xantínon-B12: é um ótimo remédio, diz. O homem, desconsolado, retrucou: não há remédio para a minha dor.

Não sou dos mais afetos às farras gastronômicas, mas feijoada, representante máxima do exagero à mesa, tem que ser divina, ou seja, completa.

O dilema maior, para os apreciadores, está em saber exatamente o que compõe uma feijoada completa. Já vi de quase tudo. Sempre me intrigou, embora sejam ótimos acompanhantes, o porquê da laranja e da couve fazerem parte do conjunto. Preciso pesquisar, mas desconfio que estão ali para diminuir a culpa pelo excesso calórico.

Um ingrediente que jamais deve faltar, segundo Stanislaw Ponte Preta, é a ambulância. Feijoada completa só com ambulância na porta.

Abra-se a exceção. Que venha a minifeijoada. Não estou triste e nem preocupado, no momento, com a queda de nenhum governo.

#Umlivrodecadapaís – Paquistão

 

 

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TR 1

 

 

 

Livro 41
País – Paquistão
Autor – Mohsin Hamid
Título – O Fundamentalista Relutante
Editora – Alfaguara

 

Mohsin Hamid é paquistanês, mas viveu boa parte de sua vida no exterior – Estados Unidos, onde estudou com Joyce Carol Oates e Toni Morrison, e na Inglaterra. Esteve no Brasil em 2014, quando participou da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). É considerado um dos grandes escritores contemporâneos. Escreveu vários romances, além de artigos sobre arte, política, literatura e outros tópicos em publicação como The Guardian, New York Times, The Washington Post, Paris Review e Time.

 

“O Fundamentalista Relutante”, seu segundo romance, publicado em 2007, relata o encontro de Changez, o narrador, com um americano de identidade desconhecida, em um Café de Mahore. A obra é um monólogo que abrange um único dia. Changez rememora e relata a sua ascensão no mercado financeiro (a realização do “sonho americano”) e o seu conflituoso romance com uma jovem chamada Érica.

 

O 11 de setembro muda completamente a vida de Changez. Seu fascínio pela América é trocado por uma sensação de traição. Sua relação com Érica é enfraquecida com a “loucura” da jovem, que começa a reviver fantasmas do passado.

 

O texto se desenrola no plano simbólico. A denominação dos personagens não é ao acaso: Changez é um derivativo de Gengis (do famoso imperador mongol Gengis Khan) e Érica remete à América.

 

Changez vivia até o ataque às torres gêmeas um processo de aculturação na sociedade americana. Gostava da vida que levava. A sua “quase namorada”, Érica, uma rica jovem nova-iorquina, “facilitava” e demonstrava a sua integração à sociedade. Tudo mudou após os ataques ao World Trade Center. Changez já não se sente americano. Sua alma está dividida e (Am)Érica está enlouquecendo e também já não quer vê-lo. Changez passa a se ver como um “janízaro” contemporâneo, que serve a um Estado que invadiu o seu país natal, o Afeganistão.

 

O texto, sem entrar em detalhes, sugere que Changez se transformou naquilo que os americanos denominam de fundamentalista. O interlocutor, a quem o protagonista conta a sua história, é quase silencioso. Parece ouvir e ter medo. Ele não é nomeado. Não se sabe porque ele está no Paquistão e o que faz no Café. Insinua-se que possa estar armado e que esteja naquele lugar a procura de Changez.

 

Frases Escolhidas

  • Quando uma mulher é assediada por um homem, ela tem o direito de recorrer aos instintos fraternos da multidão, e é sabido que a multidão espanca os homens que incomodam suas irmãs.
  • A frequência e a deliberação com que o senhor olha ao redor (…) faz lembrar o comportamento de um animal que se arriscou a se afastar demais da toca e agora, num território pouco conhecido, não sabe ao certo se é predador ou presa!
  • Durante metade de minha vida, fiquei do lado de fora da loja de doces, olhando para dentro.
  • O tempo só caminha numa direção. Lembre-se disso. As coisas sempre mudam.
  • Sou como aquela chuveirada que a gente toma antes de pular na piscina.
  • Na guerra, os soldados não lutam realmente por suas bandeiras, Changez. Eles lutam pelos amigos, pelos camaradas. Pela equipe.

 

Outros livros de Mohsin Hamid publicados no Brasil:

  • Passagem para o Ocidente
  • Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente