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#Umlivrodecadapaís – Gana

Gana

CaminhoLivro – 34

País – Gana

Autora – Yaa Gyasi

Título – O Caminho de Casa

Editora – Rocco

A autora nasceu em Gana, mas cresceu no Alabama, EUA. O Caminho de Casa é o seu primeiro romance e recebeu vários prêmios. A história acompanha a vida de alguns descendentes de duas meias-irmãs por parte de mãe (Effia e Esi) que não se conhecem. Enquanto Effia é vendida para um colonizador inglês e acaba vivendo com certo conforto, sua irmã, Esi, é vendida como escrava e vai parar na América do Norte.

A saga familiar da descendência das duas mulheres é contada por Gyasi em capítulos alternados, que têm como título o nome de alguns personagens e abrangem quase três séculos.

O texto demonstra os aspectos devastadores da escravidão e a maneira como as famílias são separadas. Também ressalta a maneira com que foi negado aos descendentes dos escravos a possibilidade de identificar e conectar as suas origens.

O leitor percebe claramente, ao acompanhar a evolução das várias gerações, como os males da escravidão são sentidos até hoje. É como se os traumas fossem transmitidos – mesmo que de forma imperceptível.

Como Gyasi afirmou em uma entrevista, O Caminho de Casa é uma novela “sobre o impacto da escravidão em uma família e também sobre como é possível herdar dramas e ideais de gerações passadas. Ela trata de herança e legado”.

Na orelha do livro, encontramos o seguinte resumo: “Mais que um épico sobre o tráfico de escravos, porém, O Caminho de Casa é um romance de grande expressão lírica, que se move por histórias contadas com economia e força excepcional de linguagem, e que não falha em captar a complexidade do espírito humano sob as condições mais adversas, resistindo através da resiliência e da esperança”.

Frases:

“– A gente pode aprender qualquer coisa – respondeu-lhe a mãe – quando é preciso. Você poderia aprender a voar se isso significasse que viveria mais um dia”.

“Fraqueza é tratar alguém como se pertencesse a você. Força é saber que a pessoa pertence a si mesma”.

“– Naquela época, Jo estava apaixonado por uma menina chamada Mirabel; e no domingo seguinte, na igreja, ele levou para o pai dela um sapo que tinha apanhado à beira d’água na noite anterior”.

“O médico era escocês e tão velho que mal conseguia andar ereto, muito menos curar doenças sem as pegar”.

“– Titia, dizem que a senhora torna possível o impossível.

Ela riu de novo.

– É, mas dizem o mesmo de Anansi, de Nyame, do homem branco. Eu só posso tornar o possível realizável. Você percebe a diferença?”

 

MORRO, COMO SEMPRE VIVI, ACIMA DE MINHAS POSSES (Oscar Wilde)

Sagu

A classificação, data vênia, como diria o causídico no debate, é minha. As pessoas, independentemente do que ganham, dividem-se em três grupos: as que gastam sempre menos do que podem; as que gastam sempre mais; e as que gastam exatamente aquilo que possuem. Eu sempre fui mais próximo do terceiro time. Um certo pavor de ficar devendo e nenhuma tendência para a avareza (como os personagens de Dickens, Balzac e Molière). Sinceramente, não sei qual é a melhor opção, nem mesmo se é fácil fazer essa escolha. No mais das vezes, a tendência é inexplicável e nem mesmo a psicanálise é capaz de fornecer respostas.

 

Mas, como talvez dissesse Machado de Assis, faço essa introdução perfunctória para contar uma história. Vou falar dos esbanjões, aqueles que gastam o que não podem e “querem dar uma de rico e aparecer”.

 

Meu primeiro encontro marcante com a situação ocorreu quando cursava o primeiro ano de faculdade, em Florianópolis. Morávamos em uma república – que se não pudesse ser chamada de paupérrima, estava próxima. Nos beliches, comprados na penitenciária da Agronômica, e que estavam espalhados pela casa, habitavam oito almas.

 

Fomos convidados, todos, para a festa de quinze anos de uma vizinha, que morava em uma casa próxima e que lembrava a nossa singeleza. Descobri depois que a festa havia sido financiada em 48 vezes, e tive a oportunidade, mesmo sem participar do pagamento, de ver as dificuldades para saldar as prestações.

 

Desde o tempo quase imemoráveis da saudosa república da Rua Clemente Rovere, tive a oportunidade de conhecer muitos “ricos” e de participar de “muitas festas de quinze anos”. Ressalte-se que os “ricos” são sempre mais agradáveis que os ávaros. Conviver com Oscar Wilde é bem melhor que com Pai Goriot (personagem de Honoré de Balzac).

 

Tenho excelentes amigos nas três categorias descritas acima, mas um, especial e dileto, adora as benesses da boa vida. A proximidade dificultou a minha escrita, temeroso de dizer algo que não deveria dizer. Mas, como diz o lugar comum, “perde-se o amigo, mas não se perde a piada”.

 

Meu amigo gosta de roupas caras, carros especiais, boas viagens. No pacote, está algo mais prosaico: gosta de sagu.

 

Há uma teoria que, se você quer saber se alguém já foi pobre, é só ver se a pessoa gosta de sagu e gelatina. É batata! Foi o que eu disse a ele.

 

Resultado: como não tem “creme brùlée” e pera flambada nos restaurantes em que almoçamos no dia a dia, meu amigo parou de comer sobremesa.

 

Já emagreceu oito quilos!

 

A pose permanece intacta!

RETORNANDO!

Coruja

Parece ser quase impossível viver sem rede social. Nos quatro anos em que exerci o mandato de Deputado estadual, a minha participação nas mais variadas formas de mídia social foi forte e constante. Evidentemente, com o auxílio dos colaboradores do gabinete.

Rede social requer tempo, nem sempre disponível na atividade política. Com o término do mandato, fiquei sem os colaboradores e alguns “perfis”. Pensei que a atividade médica dar-me-ia o tempo necessário para “mexer na rede”. Ledo engano. Atividade demais e tempo de menos.

Instado por alguns amigos e pacientes, vou tentar retornar, mesmo que o faça de maneira tímida, às interações virtuais. Publicar alguns “post(s)” e a retomada do projeto de ler um livro de cada país (e resumi-los) são os objetivos imediatos.

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Lages!

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Distraído não. Azarado!

 

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Eu tenho um sonho!

Lá, como aqui, as pesquisas, e por serem pesquisas, erram. Trump derrotou Hillary, os crédulos e os incrédulos. Alguns já dizem que estamos diante de uma nova grande revolução, o principal acontecimento desde a Segunda Guerra Mundial. Penso que é um exagero. Correndo o risco evidente de errar, entendo que não vai acontecer nada. Se errar, estarei sempre bem acompanhado, nem que seja de Nostradamus e Pelé que, ao que parece, nunca acertaram nenhuma previsão. Espero não errar como Luís XVI, que no dia da Queda da Bastilha, escreveu em seu diário: “tudo calmo; nada de novo”. Ele e a mulher, talvez pela avaliação incorreta, perderam literalmente a cabeça.

livraria

Por onde andas, João?


 

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#Umlivrodecadapaís – Serra Leoa

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Livro – 33

País – Serra Leoa

Autor – Ishmael Beah

Título – Muito Longe de Casa – Memórias de um Menino-soldado

Editora – Ediouro

Os meninos-soldados representam um fenômeno em vários países na África. Em Serra Leoa o fato foi marcante. A guerra civil começou em 1991 e perdurou onze anos. Beah foi um desses meninos-soldados. Era fã de hip hop e recitava Shakespeare na sua aldeia natal. No seu livro descreve o drama do país e o seu pessoal. Após a destruição da sua aldeia e a provável morte de toda sua família ele vaga pela região, com outros meninos, até ser aliciado pelo exército do governo. Relata como os meninos afastam-se da humanidade. Usam anfetaminas, maconha e brown-brown (cocaína misturada com pólvora e outras coisas) e sentem-se poderosos e imortais. O comandante representa a figura materna e é idolatrado. Os companheiros de luta são os amigos. A fidelidade ao grupo é absoluta. A violência é generalizada. Há prazer em matar. Afinal, é matar ou morrer. O medo, segundo Beah, os transformou em monstros. Após dois anos de luta é resgatado pela Unicef. Vai para um centro de reabilitação, onde estão muitos outros meninos. A abstinência das drogas e do prazer de matar é intenso. Os meninos brigam e destroem tudo. A violência continua, após alguns meses. Faz amizade com uma enfermeira, destaca-se pelo talento para representar e passa a ser uma espécie de porta-voz dos meninos. Viaja aos Estados Unidos para participar de um evento nas Nações Unidas. Volta ao país onde mora com um tio. Uma nova crise o leva a fugir e pedir apoio a uma americana que ele havia conhecido, que o adota. Atualmente mora nos Estados Unidos. “Muito Longe de Casa” foi publicado em 2007, ano em que o autor esteve na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil.

Frases:

“As moscas estão tão excitadas e intoxicadas que caem nas poças de sangue e morrem.”

“Hoje vivo em três mundos: meus sonhos, e as experiências da minha nova vida, que desencadeiam memórias do passado.”

“Então, para guardar espaço na sua memória para outras coisas, não direi meu nome.”

“Às vezes a noite tem uma forma de falar conosco, mas quase nunca ouvimos.”

“A lua desapareceu e levou com ela as estrelas, fazendo o céu chorar. Suas lágrimas nos salvaram das balas.”

“Covardes morrem muitas vezes antes da sua morte.”

“Minha tia veio da cozinha cheirando a comida e me abraçou. – ‘Seja qual for o lugar para onde vai, você precisa ter o cheiro da sua casa. Esse é meu perfume para você’ – Ela riu e me soltou.”

“O que eu aprendi com minhas experiências é que a vingança não é boa. Entrei para o exército para vingar as mortes da minha família e para sobreviver, mas aprendi que, se vou me vingar, durante o processo vou matar outra pessoa que tem uma família, que também vai querer se vingar; e se vingar, se vingar, se vingar, até que a vingança nunca chegue ao fim.

 

 

timidos

Estou sem palpite!

A escritora norte-americana Susan Cain publicou há alguns anos um livro que denominou o “Poder dos quietos”. Enalteceu as nossas qualidades (incluo-me de pronto no grupo). Nós, os quietos, segundo a autora, somos subvalorizados. Diz ela que a sociedade dá muito valor e cultua a extroversão. Segundo Cain, a família tende a estimular a extroversão, apontada quase sempre como uma qualidade. O texto é interessante e vale a pena ler. Uma das suas conclusões é que não há superioridade entre extrovertidos e introvertidos. Nós, os quietos, temos  a mesma chance de ter uma vida “boa” como os extrovertidos. Não sei se os quietos são menos fofoqueiros que os extrovertidos. Possivelmente sim, pois falam menos. Como representante da categoria dos quietos e distraídos, falo pouco e não presto atenção a detalhes do cotidiano que a priori me parecem irrelevantes. Acostumei-me a concentrar-me no principal do que estou fazendo. Tem sido muito útil, principalmente na minha atividade médica. Nós, quietos, damos poucos palpites. Geralmente só falamos quando instados. Se perdemos oportunidades de dizer algo importante, ganhamos, falando pouco, por dizer menos bobagens e, principalmente, por nos metermos menos na vida dos outros. Sigo Drummond que disse não precisar de dez mandamentos, mas só um: “Não interferir na vida dos outros”. Mas, tímidos e quietos podem perder o medo de falar. Discursar, por exemplo, é muito mais treino e repetição. Melhorar o discurso requer, como em qualquer atividade, esforço e dedicação. Na atividade política procuro exercitar esta prática para diminuir o número de bobagens pronunciadas. No cotidiano tenho poucos “palpites”, mas na discussão de projetos sempre tenho uma opinião, e manifesto-a. Entendo que o parlamento não serve para quem quer ficar em cima do muro. Você pode mudar de ideia, mas até para mudá-la tem que ter alguma, seja qual for o assunto. Recentemente assumiu, por um período, o mandato na Assembleia Legislativa, o combativo apresentador Roberto Salum, que definitivamente não é um quieto. Sem papas na língua palpitou sobre os mais diversos assuntos. Tudo ele tem uma opinião. Comecei a dizer em tom de pilhéria: “Eu e o Salum temos palpite  sobre tudo”. Mas, na semana que passou sucumbi. Apareceu um projeto extrapauta que eu não conhecia. Não era permitida mais vista e o Google não estava acessível à pesquisa. Disciplinava a criação de abelhas sem ferrão, bem como seus incentivos. Se fossem as com ferrão eu ainda teria o que dizer. Entreguei-me. Fiquei sem “nenhum palpite”.

 

 

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#Umlivrodecadapaís – Marrocos

 

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Livro – 32

País – Marrocos

Autor – Tahar Ben Jelloun

Título – Moha o louco Moha o sábio

Editora – Francisco Alves

 

 

Jelloun é marroquino e escreve em francês. Cultuou vários gêneros, incluindo a poesia, os ensaios e outras narrativas, romances e o teatro. O escritor é prolífico e um dos autores francófonos mais traduzidos no mundo. O autor é um grande contador de histórias que misturam a cultura do Magreb e a situação atual dos imigrantes. Moha, que dá título ao livro em questão, é personagem que aparece em outros livros de Jelloun. Transita entre o louco e o sábio e faz discursos, denunciando injustiças, pelas ruas. Critica a sociedade e os poderosos, misturando uma sabedoria popular e erudita, com boa retórica. É o louco dizendo a verdade pela pena de Tahar Ben Jelloun. Moha, o contador de histórias, é ao mesmo tempo um antigo contador de lendas e um personagem contemporâneo. Moha é “louco”, portanto livre, podendo falar a verdade sem nenhum abrandamento. A complexa e violenta sociedade do norte da África, na região do Magreb, só pode ser descrita por alguém como Moha. No texto em questão, o personagem atravessa o país falando às multidões. Vê as injustiças e fala pelos excluídos. É solidário e cultua a amizade e a fraternidade. Os fracos sãos os seus. A sociedade precisa ser desmascarada. Nas palavras do narrador: “Declarado louco, Moha foi libertado no dia seguinte. A polícia ficará com ele algumas horas, para fotografá-lo. Alguns agentes lhe fizeram cócegas debaixo dos braços. Queriam rir. Ele chorou.”

 

 

Frases:

 

“Com um outro amor agora te amarei.”

 

“Falta-nos óleo, coragem e cólera.”

 

“A cidade, depois que enriqueceu, vomitou os homens pobres que se encontravam na periferia da vida.”

 

“Que importam o tempo e as rugas?”

 

“Há ladrões demais neste país. Eles roubam legalmente.”

 

 

“Ó mulheres, há séculos eles vos abrem as pernas (…) Muni-vos de lâminas de barbear e dilacerais sem piedade seus corpos e suas certezas.”

 

“O rumor que ouço é dos meninos, nascidos de minha voz, nascidos de minha pele. Filhos da favela e do acaso, eles se preparam para se instalar na grande nuvem. A cidade tem medo. Ela não gosta de tempestade.”

 

“Aprendi na solidão, o ódio e a mediocridade, pois aí está o verdadeiro torpor.”

 

“O dinheiro vos torna loucos, covardes e pequenos.”

 

Outros livros de Tahar Ben Jelloun no Brasil:

 

“O primeiro amor é sempre o último”

“O menino de areia”

“Os frutos da dor”

“Felicidade conjugal”

“Partir”

“O último amigo”

“As cicatrizes do atlas”

“O racismo explicado à minha filha”

“O Islamismo explicado às crianças”

“De olhos baixos”