Skip to content
lages

Lages!

daniel-lucena-1

azarado

Distraído não. Azarado!

 

images

Eu tenho um sonho!

Lá, como aqui, as pesquisas, e por serem pesquisas, erram. Trump derrotou Hillary, os crédulos e os incrédulos. Alguns já dizem que estamos diante de uma nova grande revolução, o principal acontecimento desde a Segunda Guerra Mundial. Penso que é um exagero. Correndo o risco evidente de errar, entendo que não vai acontecer nada. Se errar, estarei sempre bem acompanhado, nem que seja de Nostradamus e Pelé que, ao que parece, nunca acertaram nenhuma previsão. Espero não errar como Luís XVI, que no dia da Queda da Bastilha, escreveu em seu diário: “tudo calmo; nada de novo”. Ele e a mulher, talvez pela avaliação incorreta, perderam literalmente a cabeça.

livraria

Por onde andas, João?


 

serra-leoa

#Umlivrodecadapaís – Serra Leoa

muito-longe-de-casa

Livro – 33

País – Serra Leoa

Autor – Ishmael Beah

Título – Muito Longe de Casa – Memórias de um Menino-soldado

Editora – Ediouro

Os meninos-soldados representam um fenômeno em vários países na África. Em Serra Leoa o fato foi marcante. A guerra civil começou em 1991 e perdurou onze anos. Beah foi um desses meninos-soldados. Era fã de hip hop e recitava Shakespeare na sua aldeia natal. No seu livro descreve o drama do país e o seu pessoal. Após a destruição da sua aldeia e a provável morte de toda sua família ele vaga pela região, com outros meninos, até ser aliciado pelo exército do governo. Relata como os meninos afastam-se da humanidade. Usam anfetaminas, maconha e brown-brown (cocaína misturada com pólvora e outras coisas) e sentem-se poderosos e imortais. O comandante representa a figura materna e é idolatrado. Os companheiros de luta são os amigos. A fidelidade ao grupo é absoluta. A violência é generalizada. Há prazer em matar. Afinal, é matar ou morrer. O medo, segundo Beah, os transformou em monstros. Após dois anos de luta é resgatado pela Unicef. Vai para um centro de reabilitação, onde estão muitos outros meninos. A abstinência das drogas e do prazer de matar é intenso. Os meninos brigam e destroem tudo. A violência continua, após alguns meses. Faz amizade com uma enfermeira, destaca-se pelo talento para representar e passa a ser uma espécie de porta-voz dos meninos. Viaja aos Estados Unidos para participar de um evento nas Nações Unidas. Volta ao país onde mora com um tio. Uma nova crise o leva a fugir e pedir apoio a uma americana que ele havia conhecido, que o adota. Atualmente mora nos Estados Unidos. “Muito Longe de Casa” foi publicado em 2007, ano em que o autor esteve na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil.

Frases:

“As moscas estão tão excitadas e intoxicadas que caem nas poças de sangue e morrem.”

“Hoje vivo em três mundos: meus sonhos, e as experiências da minha nova vida, que desencadeiam memórias do passado.”

“Então, para guardar espaço na sua memória para outras coisas, não direi meu nome.”

“Às vezes a noite tem uma forma de falar conosco, mas quase nunca ouvimos.”

“A lua desapareceu e levou com ela as estrelas, fazendo o céu chorar. Suas lágrimas nos salvaram das balas.”

“Covardes morrem muitas vezes antes da sua morte.”

“Minha tia veio da cozinha cheirando a comida e me abraçou. – ‘Seja qual for o lugar para onde vai, você precisa ter o cheiro da sua casa. Esse é meu perfume para você’ – Ela riu e me soltou.”

“O que eu aprendi com minhas experiências é que a vingança não é boa. Entrei para o exército para vingar as mortes da minha família e para sobreviver, mas aprendi que, se vou me vingar, durante o processo vou matar outra pessoa que tem uma família, que também vai querer se vingar; e se vingar, se vingar, se vingar, até que a vingança nunca chegue ao fim.

 

 

timidos

Estou sem palpite!

A escritora norte-americana Susan Cain publicou há alguns anos um livro que denominou o “Poder dos quietos”. Enalteceu as nossas qualidades (incluo-me de pronto no grupo). Nós, os quietos, segundo a autora, somos subvalorizados. Diz ela que a sociedade dá muito valor e cultua a extroversão. Segundo Cain, a família tende a estimular a extroversão, apontada quase sempre como uma qualidade. O texto é interessante e vale a pena ler. Uma das suas conclusões é que não há superioridade entre extrovertidos e introvertidos. Nós, os quietos, temos  a mesma chance de ter uma vida “boa” como os extrovertidos. Não sei se os quietos são menos fofoqueiros que os extrovertidos. Possivelmente sim, pois falam menos. Como representante da categoria dos quietos e distraídos, falo pouco e não presto atenção a detalhes do cotidiano que a priori me parecem irrelevantes. Acostumei-me a concentrar-me no principal do que estou fazendo. Tem sido muito útil, principalmente na minha atividade médica. Nós, quietos, damos poucos palpites. Geralmente só falamos quando instados. Se perdemos oportunidades de dizer algo importante, ganhamos, falando pouco, por dizer menos bobagens e, principalmente, por nos metermos menos na vida dos outros. Sigo Drummond que disse não precisar de dez mandamentos, mas só um: “Não interferir na vida dos outros”. Mas, tímidos e quietos podem perder o medo de falar. Discursar, por exemplo, é muito mais treino e repetição. Melhorar o discurso requer, como em qualquer atividade, esforço e dedicação. Na atividade política procuro exercitar esta prática para diminuir o número de bobagens pronunciadas. No cotidiano tenho poucos “palpites”, mas na discussão de projetos sempre tenho uma opinião, e manifesto-a. Entendo que o parlamento não serve para quem quer ficar em cima do muro. Você pode mudar de ideia, mas até para mudá-la tem que ter alguma, seja qual for o assunto. Recentemente assumiu, por um período, o mandato na Assembleia Legislativa, o combativo apresentador Roberto Salum, que definitivamente não é um quieto. Sem papas na língua palpitou sobre os mais diversos assuntos. Tudo ele tem uma opinião. Comecei a dizer em tom de pilhéria: “Eu e o Salum temos palpite  sobre tudo”. Mas, na semana que passou sucumbi. Apareceu um projeto extrapauta que eu não conhecia. Não era permitida mais vista e o Google não estava acessível à pesquisa. Disciplinava a criação de abelhas sem ferrão, bem como seus incentivos. Se fossem as com ferrão eu ainda teria o que dizer. Entreguei-me. Fiquei sem “nenhum palpite”.

 

 

maroc

#Umlivrodecadapaís – Marrocos

 

moha-o-louco

 

Livro – 32

País – Marrocos

Autor – Tahar Ben Jelloun

Título – Moha o louco Moha o sábio

Editora – Francisco Alves

 

 

Jelloun é marroquino e escreve em francês. Cultuou vários gêneros, incluindo a poesia, os ensaios e outras narrativas, romances e o teatro. O escritor é prolífico e um dos autores francófonos mais traduzidos no mundo. O autor é um grande contador de histórias que misturam a cultura do Magreb e a situação atual dos imigrantes. Moha, que dá título ao livro em questão, é personagem que aparece em outros livros de Jelloun. Transita entre o louco e o sábio e faz discursos, denunciando injustiças, pelas ruas. Critica a sociedade e os poderosos, misturando uma sabedoria popular e erudita, com boa retórica. É o louco dizendo a verdade pela pena de Tahar Ben Jelloun. Moha, o contador de histórias, é ao mesmo tempo um antigo contador de lendas e um personagem contemporâneo. Moha é “louco”, portanto livre, podendo falar a verdade sem nenhum abrandamento. A complexa e violenta sociedade do norte da África, na região do Magreb, só pode ser descrita por alguém como Moha. No texto em questão, o personagem atravessa o país falando às multidões. Vê as injustiças e fala pelos excluídos. É solidário e cultua a amizade e a fraternidade. Os fracos sãos os seus. A sociedade precisa ser desmascarada. Nas palavras do narrador: “Declarado louco, Moha foi libertado no dia seguinte. A polícia ficará com ele algumas horas, para fotografá-lo. Alguns agentes lhe fizeram cócegas debaixo dos braços. Queriam rir. Ele chorou.”

 

 

Frases:

 

“Com um outro amor agora te amarei.”

 

“Falta-nos óleo, coragem e cólera.”

 

“A cidade, depois que enriqueceu, vomitou os homens pobres que se encontravam na periferia da vida.”

 

“Que importam o tempo e as rugas?”

 

“Há ladrões demais neste país. Eles roubam legalmente.”

 

 

“Ó mulheres, há séculos eles vos abrem as pernas (…) Muni-vos de lâminas de barbear e dilacerais sem piedade seus corpos e suas certezas.”

 

“O rumor que ouço é dos meninos, nascidos de minha voz, nascidos de minha pele. Filhos da favela e do acaso, eles se preparam para se instalar na grande nuvem. A cidade tem medo. Ela não gosta de tempestade.”

 

“Aprendi na solidão, o ódio e a mediocridade, pois aí está o verdadeiro torpor.”

 

“O dinheiro vos torna loucos, covardes e pequenos.”

 

Outros livros de Tahar Ben Jelloun no Brasil:

 

“O primeiro amor é sempre o último”

“O menino de areia”

“Os frutos da dor”

“Felicidade conjugal”

“Partir”

“O último amigo”

“As cicatrizes do atlas”

“O racismo explicado à minha filha”

“O Islamismo explicado às crianças”

“De olhos baixos”

 

mapa-bosnia-e-herzegovina

#Umlivrodecadapaís – Bósnia

como_o_soldado_conserta_o-gramofone_sasa_stanisic

Livro – 31

País – Bósnia-Herzegovina

Autor – Saša Stanišíć

Título – Como o soldado conserta o gramofone

Editora – Record

Bósnia-Herzegovina

Saša Stanišíć nasceu em Višegrad, situada hoje na Bósnia-Herzegovina. Aos 14 anos fugiu, com a família, para a Alemanha em função da guerra na extinta Iugoslávia. O romance “Como o soldado conserta o gramofone” é o seu livro de estreia. Já foi traduzido em muitos países e o autor ganhou vários prêmios literários. O texto é divido em três partes que se mesclam e em determinados momentos parecem confusas ao narrador e/ao leitor. Na parte inicial aparece a história da família em Višegrad. Aleksandar, o personagem principal, tem um afeto especial pelo avô Slavko, um nacionalista sérvio fã do Marechal Tito. O avô é um contador de histórias e o menino, Aleksandar, aprende e “herda” este talento. O avô morre no início do conflito. A mudança, para a Alemanha, vem a seguir. A imaginação do garoto, as suas fantasias misturadas às lembranças, transformam a sua cidade natal em um local ficcional. Em um segundo momento, já adolescente, Aleksandar, rememora o passado e a infância que lhe parece ter sido muito feliz. Um pacote, enviado pela avó, que permaneceu no local, é a “Madeleine” do autor. Reconstrói a sua infância de maneira nostálgica. A narrativa é bela e suave. As barbaridades da guerra, o sangue, o trágico e o destrutivo vêm à memória. Devem ser recordados e transcritos. São feitos de forma a nos horrorizar, sem nos horrorizar. A última parte narra a volta de Aleksandar. É preciso ver como estão as pessoas e os lugares da sua memória. Sua imaginação é novamente posta à prova. É preciso recriar a realidade do pós-guerra e reunir ao passado, muito presente na sua memória. Uma partida de futebol, entre sérvios e bósnios, durante uma trégua, é um dos pontos altos do texto. O livro é claramente autobiográfico. Mostra um olhar de uma criança sobre a guerra e suas perdas e mortes.  O texto prenuncia um bom escritor.

Frases:

“Um pintor não pode jamais estar satisfeito com aquilo que vê – reproduzir realidade significa capitular diante dela!”

“Os mortos são mais solitários do que nós, os vivos, jamais seremos.”

“O bisavô foi à escola apenas até a letra “t”, porque depois disso não vem mais nada importante.”

“Danilo, do cérebro ao pau, tudo em ti é diminuto!”

“Será que ainda existem endereços em Sarajevo?”

“Não existem mulheres feias, existem apenas homens que não aprenderam a olhar direito quando eram garotos.”

interrogacao

Joel Santana e a filosofia

Joel Santana é um técnico de futebol brasileiro. Teve (tem) uma carreira de relativo sucesso. Foi campeão carioca pelo Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo, todos grandes times do Rio de Janeiro. Comandou a seleção da África do Sul, por pouco tempo, mas levou o país à semifinal da Copa das Confederações de 2009.

Outras coisas que o tornaram conhecido, e folclórico, foi o fato de usar uma prancheta à beira do campo e o seu inglês ingênuo, mas pronunciado sem nenhuma hesitação. Joel é um exemplo do que muitos conhecem por “Jeca desembaraçado”. Tal personagem é um tipo comum no nosso cotidiano. Você deve conhecer muitos. Com alguma inteligência, muitas vezes, têm muito sucesso. Parece-me o caso de Joel Santana.

Dentre suas hilárias e espirituosas tiradas, uma eu aprecio em especial. Intervalo de um jogo qualquer e seus auxiliares insistem com Joel: “Tá na hora de colocar o fulano no jogo.” Responde ele: “É claro que eu sei, mas não dá pra jogar com 12; vou tirar quem?” A ingênua (ou não tão ingênua) observação de Joel é um tema que intriga os filósofos desde há muito. No cotidiano da vida escolhemos permanentemente. A opção por um caminho necessariamente elimina o outro. Não é possível jogar com 12 e nem viver as duas (ou inúmeras) vidas possíveis. Talvez no futuro, quando a Física Quântica tornar-se algo mais palpável.

É necessário, como diz um dos atuais pop stars da filosofia brasileira, Clóvis de Barros Filho, saber escolher a vida que vale a pena ser vivida. A observação de Joel Santana pode servir a muitos. Intelectuais em geral, filósofos, políticos e a todos. Não é possível jogar com 12. Priorizar algo significa sacrificar alguma coisa. Os debates televisivos e acadêmicos sofrem de uma perigosa tendência de apontar caminhos, muitas vezes custosos literalmente, sem dizer quem deve ir para o banco. Campanhas políticas são o suprassumo. Ninguém fala quem vai ser substituído.

 

 

 

EMOJI POST

Então foi você Zezé!

Meu amigo Zezé, grande ídolo do glorioso Internacional, mandou um recado por um amigo próximo, dizendo que um de meus artigos estava muito intelectualizado. Disse preferir coisas mais pessoais. Tem razão. Artigos intelectualizados não são atrativos e acabam sendo chatos. A arte de contar estórias (Storytelling para os americanos) passa por contar casos pessoais. Alguém já disse que histórias não passam de dados com alma. Há algumas semanas fui a um congresso médico de Endocrinologia, na Costa do Sauipe, na Bahia. Fica a uns 70 km de Salvador. Estendeu-se até no sábado. Resolvemos, eu e a Cristina, ir até Salvador. Reservei um hotel no centro histórico. No caminho o taxista já foi nos assustando. Vocês escolheram um lugar perigoso. Na região do Pelourinho não tem problema. Mas onde vocês vão ficar é um pouco afastado. Não dá para sair à noite a pé. Hotel pequeno, bem recomendado (e que se confirmou bom), mas com vizinhança um pouco estranha realmente. Porta chaveada; apertamos a campainha e lá veio o único funcionário no momento. No check-in nos entregou um celular. Disse: – “é cortesia do hotel, para uso, enquanto vocês estiverem por aqui. Qualquer problema na rua nos liguem.”  De pronto perguntei: – “Mas já tem o número do FBI na memória?” Afora as insinuações de perigo, Salvador pareceu-me muito segura. Eu, como Steven Pinker (Os anjos bons da nossa natureza) e Michael Blastland (Viver é perigoso?), sou otimista. Os dados de seus livros demonstram (apesar de toda insinuação da mídia) que a violência está diminuindo. Saímos para jantar, de táxi “por precaução”. Iríamos passar em frente ao Centro de Convenções. Lembrei-me de outro congresso que tinha ido, e que tinha acontecido ali, penso que em 1996. Estava contando para minha mulher que, na ocasião, eu tinha chegado atrasado à palestra de abertura. Luzes apagadas, fui caminhando pelo corredor lateral em direção à frente, olhando para o slide projetado, quando surgiu um buraco, de uma escada, que estava aberta. Resultado! Desci ladeira (escada) abaixo e foi uma barulheira geral. Pequena interrupção, atendimento médico não faltou, nenhum dano aparente, e a vida continuou. O taxi continuava firme em direção ao restaurante e surge na nossa frente o Centro de Convenções. Havia desabado pela manhã uma parte da entrada (no domingo era notícia em todos os jornais da Bahia). Afirmei de cara para a Cristina: “Eu sabia que a estrutura tinha ficado abalada!” Matthieu Ricard, que tem o título de pessoa mais feliz do mundo, apresentou uma conferência no TED, vista por mais de dois milhões de pessoas: “Os hábitos da felicidade”. Disse que ficava feliz de compartilhar as ideias e que, como indivíduo, não tinha nada a ganhar ou perder. Afirmou: “Não me importo com a minha imagem, não tenho nenhum negócio para fechar e não estou tentando impressionar ninguém”. Eu ando feliz (provavelmente não como o Ricard), já não me preocupo tanto com a questão da imagem, não quero vender nada a ninguém, mas fiquei preocupado com o que o Zezé disse. Preciso impressioná-lo. Vai que, o meu amigo Zezé, seja o meu único leitor.